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	<title>Filosofante &#187; Vilém Flusser</title>
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		<title>Moral sadia</title>
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		<pubDate>Thu, 30 Oct 2008 04:02:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Juliano</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Moral sadia]]></category>
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		<description><![CDATA[&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;O termo &#8220;moral&#8221;, que significa originalmente costume seguido pela maioria de uma dada sociedade, tem atualmente conotação embelezadora. &#8220;Imortal&#8221; não é um sujeito que se recusa a seguir determinados costumes, (por exemplo: usar gravata), mas um sujeito que comete atos feios. E muitas vezes tais atos têm a ver com o sexo. Isto porque os <a href="http://www.filosofante.com.br/?p=362" class="more-link">Mais &#62;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O termo &#8220;moral&#8221;, que significa originalmente costume seguido pela maioria de uma dada sociedade, tem atualmente conotação embelezadora. &#8220;Imortal&#8221; não é um sujeito que se recusa a seguir determinados costumes, (por exemplo: usar gravata), mas um sujeito que comete atos feios. E muitas vezes tais atos têm a ver com o sexo. Isto porque os costumes relativos ao sexo são os mais embelezados. O termo &#8220;saúde&#8221;, que significa originalmente &#8220;salvação&#8221;, passa a significar algo como &#8220;normalidade&#8221;. &#8220;Moral sadia&#8221; é, pois, atualmente o modelo para um comportamento, (principalmente sexual), que espelhe da maneira mais perfeita possível o comportamento normal da sociedade. É que o comportamento médio da sociedade é considerado ideal e norma.</p>
<p><span id="more-362"></span>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A premissa atual do comportamento sexual &#8220;normal&#8221;, (isto é: normalizado), é esta: existem dois sexos, nitidamente separados um do outro, cada qual com seu papel na sociedade, e que tentem para se unirem e formarem pares permanentes. A premissa não se baseia em fatos observáveis, a observação diz isto: embora existam dois sexos, não são nitidamente separados. Em toda fêmea há elementos femininos. Os papéis sociais dos dois sexos são fluidos e mal definidos. Os dois sexos tendem não a penas a formarem pares permanentes, mas também pares transitórios, e grupos polígamos mais ou menos passageiros. Estes são os fatos observáveis.</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A &#8220;moral sadia&#8221; escolhe entre os fatos os que devem ser, (os &#8220;sadios&#8221; e &#8220;sagrados&#8221;), e reprime os que não devem ser, (os &#8220;imortais&#8221; e &#8220;feios&#8221;). Com tal escolha, a moral normaliza os fatos e empobrece o repertório do comportamento. É esta a função da moral: servir de triagem. Mas, sendo obra humana, não funciona perfeitamente. Não consegue eliminar os fatos reprimidos. Consegue apenas deturpa-los.</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Há atualmente, como se sabe, crise da moral sadia. Isto pode significar duas coisas. Pode significar que a peneira moral atual esta sendo substituída por outra, (possivelmente de buracos maiores). E pode significar que não haverá mais peneira. Em outros termos: ou transvaloração dos valores, ou desvaloração dos valores. Somente o futuro mostrará qual das duas alternativas será o caso.</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Uma coisa é certa: o empobrecimento do nosso repertório pela moral sadia é uma pena. Homem nenhum pode realizar-se plenamente nos papeis impostos pela moral, e, com ênfase ainda maior, mulher humana. Daí o movimento da libertação feminina. Possivelmente o termo &#8220;&#8221;sadio&#8221;" deveria ser redefinido para significar &#8220;&#8221;salvação&#8221;" novamente?</p>
<p><center><img src='http://www.filosofante.com.br/v1/wp-content/img/linha.gif' /></center><br />
<span style="color:#006600;">[<strong>Vilém Flusser</strong>]</span><br />
Publicado originalmente em <b>&#8220;Folha de São Paulo&#8221;</b> 08/03/1972</p>
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		<title>Ensino</title>
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		<pubDate>Wed, 22 Oct 2008 03:47:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bill</dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;Uma das diferenças entre animais e o homem é está: os animais transmitem de geração para geração apenas informações genética, já os homens também transmitem informações adquiridas. Um dos métodos de tal transmissão é chamado &#8220;ensino&#8221;. A geração transmissora, (o professor), comunica à geração receptora, (ao aluno), os métodos de comportamento e de conhecimento, (os <a href="http://www.filosofante.com.br/?p=360" class="more-link">Mais &#62;</a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Uma das diferenças entre animais e o homem é está: os animais transmitem de geração para geração apenas informações genética, já os homens também transmitem informações adquiridas. Um dos métodos de tal transmissão é chamado &#8220;ensino&#8221;. A geração transmissora, (o professor), comunica à geração receptora, (ao aluno), os métodos de comportamento e de conhecimento, (os &#8220;valores&#8221; e as &#8220;teorias&#8221;), acumulados ao longo da história da humanidade, e enriquecidos por todas as gerações participantes. Pois o ensino, como tanta outra estrutura atual, está em crise.</p>
<p><span id="more-360"></span>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Um aspecto importante da crise se mostra, se enforcarmos o ensino do ponto de vista dos professores. São transmissores de modelos, mas não necessariamente meros transmissores. Podem, é claro, transmitir como meros canais inertes. Podem comunicar modelos de comportamento do tipo &#8220;ame teu pai e tua mãe&#8221;, ou modelos de conhecimento do tipo &#8220;a baleia é mamífero&#8221;, e &#8220;dois mais dois são quatro&#8221;, sem ativamente se engajarem em tais modelos. Mas neste caso poderão ser provavelmente substituídos por máquinas de ensino programado. São superados. O progresso impiedoso varrerá este tipo de professores da cena.</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Mas os professores podem, também, engajarem-se nos modelos que transmitem. Serão no caso autenticamente humanos. Mas aí surge o problema do esvaziamento atual dos modelos por dúvidas crescentes. Por exemplo: &#8220;ame teu pai e tua mãe, mas não edipicamente&#8221;. Ou: &#8220;a baleia é mamífero nos critérios determinados pela atual zoologia&#8221;. Ou, &#8220;dois mais dois são quatro no sistema decimal, desde que zero seja número, e todo sucessor de número seja número&#8221;. Em tais casos surgirá no professor um terrível conflito. Com que direito transmitir modelos, os quais são aceitos pelo próprio professor com graves reservas? Não seria melhor transmitir as dúvidas em vez de modelos?</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O ensino, embora não o único para transmissão modelos adquiridos, é um método muito importante. Seria difícil ver como, sem ele, poderá ser mantida aquela cadeia de gerações chamada &#8220;história da humanidade&#8221;. É claro, há o método de aprendizado que transmite modelos de funcionamento. A sociedade tecnológica com sua crescente automação poderia sobreviver à morte do ensino. Mas valerá isto a pena?</p>
<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A crise do ensino está sendo enfrentada. O ensino programado é uma resposta possível. Mas não resolve o problema dos modelos em vias de esvaziamento. A solução de tal problema exige que mudem por completo as atitudes da humanidade com relação aos modelos. A crise do ensino é subcrise dos valores. Se a crise dos valores não for resolvida, o ensino passará a ser tarefa de televisões e aparelhos.</p>
<p><center><img src='http://www.filosofante.com.br/v1/wp-content/img/linha.gif' /></center><br />
<span style="color:#006600;">[<strong>Vilém Flusser</strong>]</span><br />
Publicado originalmente em <b>&#8220;Folha de São Paulo&#8221;</b> 19/02/1972</p>
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